Organicidades da Temporalidade
Toda construção cultural, social ou afetiva repousa sobre um corpo biologicamente regulado. A capacidade de responder ao mundo de forma adaptativa emerge da estabilidade dinâmica dos sistemas fisiológicos que sustentam percepção, atenção, energia e disponibilidade afetiva ao longo do tempo. Este eixo oferece uma alfabetização profunda do corpo vivo, evidenciando como ritmos biológicos organizam a experiência e constituem a base sobre a qual qualquer reorganização temporal posterior se apoia.
A proposta é oferecer a base biológica e regulatória a partir da qual processos afetivos, relacionais e temporais mais complexos podem ser sustentados.
A consciência corpóreo-afetiva é compreendida como um processo contínuo de regulação, no qual estados fisiológicos modulam a forma como o mundo é percebido, sentido e habitado (Damasio; Barrett). Ritmos circadianos, ultradianos e infradianos estruturam ciclos de ativação e repouso, influenciando não apenas o funcionamento metabólico, mas também a qualidade da atenção, da presença relacional e da resposta emocional (Hall; Rosbash; Young; Roenneberg).
Um apanhado que favorece a identificação de padrões internos de fluxo, bloqueio e sobrecarga, e a amplição da capacidade de leitura dos próprios estados neurofisiológicos. Aqui, estados de segurança, engajamento e disponibilidade emergem como condições orgânicas fundamentais para a experiência relacional e cognitiva, sustentadas por sistemas de regulação autonômica sensíveis ao contexto, à previsibilidade e à qualidade das interações (Porges; Dana).
Ao integrar sono, alimentação, movimento, exposição à luz e ritmos sociais como componentes vivos da arquitetura temporal do organismo, este eixo cultiva uma compreensão prática e encarnada do cuidado biológico, possibilitando intervenções microrregulatórias conscientes, sustentáveis e respeitosas aos limites individuais e contextuais.
Principais territórios atravessados:
Genes-relógio e ritmos circadianos, ultradianos e infradianos
(Hall; Rosbash; Young; Roenneberg);
Organização energética, homeostase e alostase
(Sterling; McEwen);
Estados de segurança, engajamento e regulação autonômica
(Porges; Dana);
Consciência corporal, valor biológico e afetividade
(Damasio);
Emoções como sinais de recursos internos e regulação preditiva
(Barrett).
Práticas: mapeamento de cronotipo e ritmos individuais; identificação de picos, vales e estados recorrentes de sobrecarga energética; autoavaliação de estados de regulação neurofisiológica; leitura de padrões emocionais recorrentes como sinais de recursos internos; observação da influência de luz, alimentação, movimento, interação social e tecnologia; práticas vivenciais e questionários estruturados para alfabetização corporal; aplicação de microrregulações sustentáveis, que respeitam limites individuais e contextuais.
Resultados: percepção clara de como o corpo organiza tempo, energia e atenção; compreensão aprofundada da relação entre ritmos biológicos e experiências afetivas, sociais e cognitivas; habilidade de intervir localmente sobre desequilíbrios fisiológicos; maior fluidez na experiência temporal cotidiana; estabelecimento de uma base biológica sólida para processos posteriores de alinhamento e transformação.