Abril de 2026
Este ciclo desloca o olhar para uma dimensão anterior às rupturas e às transições, dirigindo-se ao reconhecimento do devir como condição constitutiva da existência humana. Desde a antiguidade, essa compreensão é absorvida em diferentes tradições filosóficas e cosmológicas. Em Heráclito, encontramos a ideia de que tudo flui, de que a realidade não se fixa, mas se transforma continuamente, e de que a identidade é sempre provisória, atravessada por processos de mudança que nunca cessam. Nesse campo de pensamento, viver implica participar de um movimento constante de tornar-se, no qual estabilidade e permanência são experiências relativas, sustentadas por ritmos, relações e narrativas compartilhadas.
Durante longos períodos da história humana, essa impermanência era vivida, não como ameaça, mas fundamento da organização da vida. Diferentes povos orientavam-se por temporalidades cíclicas, nas quais nascimento, crescimento, dissolução e renovação constituíam aspectos inseparáveis da experiência. Cosmologias como o Dreamtime aborígene, o Pachakuti andino e o Ubuntu africano expressam, por vias distintas, essa compreensão de que a existência se desenrola em ciclos de transformação, nos quais o indivíduo, a comunidade e o ambiente permanecem profundamente entrelaçados. Nesse contexto, para além de apenas de recursos individuais, a capacidade de atravessar mudanças dependia de dispositivos coletivos, que reconheciam e favoreciam a transitoriedade.
É nesse cenário que emergem os ritos de passagem, processos que a antropologia clássica descreve como formas estruturadas de acompanhar a reordenação do viver ao longo do tempo. Em Arnold van Gennep, as transições são compreendidas por meio de três movimentos: separação; liminaridade e reintegração, e constituem um campo fértil, e não vazio, de metamorfoses, no qual antigas referências deixam de operar enquanto novas configurações ainda não se estabilizam. Victor Turner, em sequência, descreve esse intervalo de liminaridades como um estado between-and-betwixt, marcado pela suspensão temporária das categorias sociais, pela ambiguidade e pelo potencial criativo. Nesses momentos, coloca o autor, a experiência de estar entre mundos deve ser legitimada, testemunhada e apoiada.
Em contraponto a essas ideias, a modernidade, ao instaurar um regime temporal predominantemente linear, enfraqueceu tais estruturas do entre: a vida passou a ser narrada como sequência contínua de metas e desempenhos, o que obscureceu a natureza processual da existência. Mudanças fundamentais, como maternidade, envelhecimento, menopausa, adoecimento, perdas ou reconfigurações profissionais, são frequentemente tratadas como eventos isolados, desvinculados das transformações biológicas, relacionais e narrativas que as modelam. Nesse cenário, o devir deixa de ser reconhecido como camada formativa e passa a ser vivido como falha, desorientação ou interrupção do curso esperado.
Do ponto de vista clínico, essa linearização favorece experiências prolongadas de suspensão temporal, sensação de irrealidade, instabilidade autonômica e fragmentação subjetiva, pois quando a cultura não oferece marcos para integrar as transições, o organismo permanece mobilizado na tentativa de restaurar previsibilidade, o que pode se expressar como ansiedade persistente, exaustão ou dificuldade de imaginar futuros possíveis. O sofrimento, então, mais do que derivar apenas davariação em si, torna-se produto da ausência de linguagens, rituais e vínculos capazes de abraçar o tornar-se.
Neste ciclo, com isso, o trabalho consiste em reaproximar-se da impermanência como fundamento da vida e reconhecer o entre-lugar vivido como parte legítima do processo humano. Investigam-se, aqui, quais transições estão em curso, como o ser integrado responde a essas reestruturações e quais manifestações culturais têm dificultado a integração da vivência. A partir desse mapeamento, reconstroem-se rituais de passagem contemporâneos, práticas corporificadas, relacionais e simbolicamente orientadas que marcam separações, sustentam a liminaridade e favorecem a reintegração gradual em novas configurações de identidade e vínculo.
Ao final, a pessoa amplia a capacidade de habitar o vir-a-ser sem colapsar na fragmentação, reconhecendo a transitoriedade como eixo organizador da vida e construindo modos mais lúcidos, coletivos e sustentáveis de incorporar as transformações que constituem o humano.